Geossítio em Paulista

Uma área de 6,5 hectares, dentro do terreno da fábrica da Votorantim Cimentos em Paulista, na Região Metropolitana do Recife (RMR), guarda um tesouro para geólogos e pesquisadores em fósseis. É o sítio geológico K-Pg Mina Poty, o primeiro a ser descrito na América do Sul e único no Brasil com indícios do meteoro que marcou o fim da era dos dinossauros no planeta Terra. Cientistas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e de outros lugares do mundo chegaram a essa teoria após encontrarem concentrações elevadas do elemento químico irídio, substância bastante comum em meteoros por suportar elevadas temperaturas. Nesta última semana, foi reaberta a temporada 2019/2020, entre novembro e abril, para visitas educativas e científicas ao geossítio, que completou um ano de inaugurado.

Segundo a geóloga Flávia de Lima, outra evidência da presença de resquícios do meteoro que deu fim à era dos dinossauros é que o irídio encontrado nas rochas está em uma linha de um centímetro localizada justamente entre dois marcadores geológicos importantes: o cretássio, que está embaixo do irídio e é característico da era dos dinossauros (mesozoica), e o paleógeno, que está por cima da camada do irídio e é típico da era dos mamíferos (cenozoica). Esse formato foi batizado de Limite K-Pg, que deu nome ao geossítio. “O meteoro não caiu nessa região, caiu no Golfo do México. Mas suas fragmentações chegaram em Maria Farinha, Paulista. Segundo as pesquisas, toda essa área era alto-mar com cerca de 400 metros de profundidade”, explicou a geóloga.

Geossítio em Paulista

E as descobertas não se limitaram ao irídio. Até agora, duas novas espécies também já foram encontradas, mas em formações geológicas pós-dinossauro (formação maria farinha). A primeira delas foi em 2008. Um crânio completo, vértebras e osteodermos do crocodiliforme marinho, que sobreviveu à extinção em massa que eliminou os dinossauros e mais 70% das espécies que existiam na Terra naquela época. A espécie Guarinisuchus munizi, “crocodilo guerreiro”, viveu na costa do nordeste brasileiro há cerca de 62 milhões de anos, segundo os pesquisadores.

A outra descoberta foi em 2016, quando parte da carapaça (plastrão) e outros ossos da tartaruga Inaechelys pernambucensis, “rainha do mar de Pernambuco”, foram encontrados em rochas da mineração na unidade Poty Paulista. Essa espécie vivia em áreas próximas da costa, também há cerca de 62 milhões de anos. Quem cuida do acervo fóssil que vem sendo encontrado no sítio K-Pg Mina Poty é a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Em muitas rochas, é possível identificar ostras, protozoários, lulas, caranguejos e outros fósseis de animais marinhos. Como aqui era oceano profundo, não vamos ter achados de fósseis de dinossauros, mas de animais marinhos, como o próprio tubarão que vem sobrevivendo a várias extinções”, disse a técnica de laboratório do Departamento de Geologia da UFPE, Yumi Asakura. Para tais descobertas, foram necessárias necessárias escavações de mais de 20 metros de profundidade.

Geossítio em Paulista

Outras comprovações do Limite K-Pg tratam de características físicas, através de rochas com indícios de tsunami. O que atesta a descoberta científica de que o fundo do mar foi revolvido é a existência de microesférulas (grãos de vidro microscópicos) e fragmentos de quartzos de impacto, produzidos pelo calor gerado no momento da colisão no Golfo do México. Estes vestígios também foram encontrados em outras partes do mundo, comprovando o impacto do meteoro. Pela sua relevância científica, o geossítio K-Pg Mina Poty foi reconhecido na publicação da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP) do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

O gerente de Direito Mineral da Votorantim Cimentos, Rodrigo Sansonowski explica que, a princípio, o geossítio K-Pg Mina Poty ficará limitado a visitas educativas e científicas, e não terá finalidade turística nem será aberto para a população em geral. As atividades são suspensas entre maio e outubro por conta do período de chuvas. “No primeiro ano de funcionamento em 2018, tivemos visitas apenas com caráter científico. Mas a temporada 2019-2020 também contempla ações de relacionamento com moradores, estudantes da cidade e familiares dos colaboradores, por meio de visita ao sítio geológico e, bem como atividades educativas em escolas públicas, com possibilidade de expandir para escolas particulares.

Local é considerado patrimônio mundial da geologia

Apesar de ter sido inaugurado ano passado, as descobertas no geossítio K-Pg Mina Poty começaram na década de 1990, através da atividade de mineração para obtenção da matéria-prima do cimento. Desde então, o lugar tem atraído a atenção de cientistas do Brasil e do mundo todo. O interesse resultou em um convênio entre da fábrica Votorantim Cimentos com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um acordo com o Ministério Público Federal (MPF) para que a instituição de ensino tenha acesso aos dados e aos fósseis encontrados.

O material está sendo catalogado e conservado pela UFPE, fomentando o acervo técnico da universidade e possibilitando acesso a novos itens geológicos e paleontológicos. Réplicas de fósseis são fabricadas em gesso pela UFPE para trabalhadas em salas de aula com alunos de graduação e de escolas públicas.

“Essa área aqui é de fundamental importância para nós pesquisadores. Além de estudar formações geológicas e o impacto que o meteoro provocou na Terra, com a extinção de muitas espécies e o surgimento de outras, nós conseguimos identificar, por exemplo, que a fauna na formação gramame é muito diferente da encontrada em outros períodos. Ainda há muito a se investigar e há muito trabalho a se fazer nesse sítio geológico. Não apenas com os fósseis, mas com outros tipos de estudos”, disse o professor e pesquisador do Departamento de Geologia da UFPE, Virginio Neumann.

Um deles é o estudo que está sendo realizado pelo aluno de Paleomagnetismo da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Shyu. Ele pesquisa como a colisão do meteoro com a Terra mudou o campo magnético do planeta, provocando a extinção de 70% das espécies e mudanças das condições climáticas, com grandes atividades de vulcanismo. “Realizando estudos prévios podemos compreender como a Terra se comportou nos eventos extremos de épocas passadas, para ser possível projetar como proceder caso eventos como esse aconteçam novamente”, justificou Shyu, que estuda o paleomagnetismo do Limite K-Pg.

A pesquisa de Ricardo Shyu conta com elementos de outro trabalho feito pelo departamento de Geologia da UFPE, que mostrou uma sequência de eventos vulcânicos a partir de isotopos de mercúrio nas mostras dos carbonatos. “O geossítio K-Pg Mina Poty é um lugar de importância mundial e por isso é fundamental a preservação desse lugar”, completou Neumann.

Segundo o gerente de Direito Mineral da Votorantim Cimentos, Rodrigo Sansonowski, a fábrica compatibiliza as atividades minerárias com a geoconservação. “O trabalho de mineração contribuiu para que fossem descobertas as evidências que viabilizaram a criação da estratégia de geoconservação e a respectiva implementação do geossítio. É o único da América Latina com plano de gestão que contempla a conservação com monitoramento e manutenção, além do uso público, com visitas educativas e científicas. Temos que valorizar esse patrimônio natural de relevância internacional, possibilitando às pessoas conhecerem esse espaço para compreender o valor da sua conservação”, afirmou.

Quatro exposições geológicas do geossítio

  • Porção superior da Formação Gramame: sedimentos marinhos datados do cretáceo-paleocêno (fósseis marinhos vistos a olho nu)
  • Limite K-Pg: onde pode ser vista a camada de irídio
  • Porção intermediária da Formação Maria Farinha
  • Exposição geológica para prática de campo

Saiba mais

O nome do sítio faz referência ao Limite K-Pg, que demarca o fim do período do tempo geológico Cretáceo (K) e início do Paleógeno (Pg)
O impacto, ocorrido há aproximadamente 66 milhões de anos, provocou mudanças ambientais e episódio de extinção em massa, como tsunamis, incêndios e nuvens de poeira
Estima-se que de 64% a 85% de todas as espécies, nos biomas marinhos e terrestres, incluindo os dinossauros, desapareceram com a queda do meteoro
Conheça mais sobre aqui
Solicitação de visitas educativas (turmas e/ou eventos científicos) e científicas (pesquisadores) pelo e-mail geossitio.poty@vcimentos.com.

Fonte: DP