Crise afetou diretamente quem vivia de trabalhos informais na Ocupação Miguel Lobato

Crise afetou diretamente quem vivia de trabalhos informais na Ocupação Miguel Lobato

Como publicado nesta segunda-feira (18) pelo LeiaJá, a Ocupação Miguel Lobato nas proximidades de Maranguape II em Paulista é onde a luta de famílias faz morada para fugir da situação precária em que vivem. Sem ter onde morar, as famílias começaram a chegar a partir de outubro do ano passado e desde então têm cobrado das instituições um auxílio para sair dali.

Mas o destino de todo o mundo se viu diante de um vírus mortal, que basicamente obrigou o mundo a se resguardar em quarentena. E além das dificuldades já apresentadas pela reportagem, outra barreira se colocou diante das famílias.

Sem grandes oportunidades, muitos que vivem naquela região dependiam, até então, de trabalho na rua como venda de pipoca e água, serviços de faxinas, serviços na construção civil, entre outros. Tudo parou, mas a fome não quer saber.

“A gente vai para rua, catar reciclagem, pegar um peixe, pegar siri no mangue porque agora nesta crise não tem como trabalhar, ninguém quer dar emprego”, conta a moradora Mienia Oliveira. Mas com o surgimento do covid-19, a vida se alterou.

Djane Cabral da Silva e seu esposo Roberto Bezerra da Silva vivem exatamente nessa situação. O encontro com nossa equipe foi por acaso, enquanto gravamos com a moradora Josélia, Djane e seu marido Roberto tentavam melhorar ao lado da casa da entrevistada, o barraco recém-adquirido, após terem furtado o anterior. Lá dentro, nossa equipe escutou o relato da moradora da ocupação.

Por volta das 8h da manhã o casal começa a caminhada em direção ao mangue para mais um dia de trabalho.

Antes com a segurança das faxinas semanais e das suas vendas como pipoqueira no bairro do Janga, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, eram poucas as vezes que precisava ir ao mangue para completar a renda. No entanto, a pandemia da covid-19 tornou a longa caminhada em busca de caranguejos e marisco mais frequente.

São pouco mais de 3 km entre a Ocupação e o mangue, de onde Djane e sua família tiram seu sustento. Nossa equipe seguiu com o casal para acompanhar um dia de trabalho da família. Seguimos com Djane e Roberto pelas margens da PE-022, rumo ao mangue. No longo caminho, nossa equipe ouviu deles que a relação com a lama, os caranguejos e mariscos é paternal.

“Meu pai ensinou eu (sic) e meus irmãos dentro do mangue nunca roubar ninguém, nem traficar porque não vale a pena”, conta Djane que ainda completa: “Tenho orgulho de mim”. Durante a caminhada, por diversas vezes, citou sua mãe ‘que estava chegando’ e também seu pai já falecido. Sua maior preocupação é com sua família. Sua luta, segundo ela, é pensando nos filhos, especialmente quando fala da ocupação e da batalha pela moradia.

“Essa doença proibiu a gente de trabalhar né?”, lamenta, enquanto carrega no carrinho de mão o material do seu trabalho. “A vida se tornou mais difícil e eu e minha família nos viramos aqui dentro do mangue. Isso faz passar o tempo da gente feliz. Trabalhando a gente esquece os problemas, stress”.

Djane retira baldes cheios de lama e de lá vem o esperado marisco após um processo de limpeza exaustivo.

Durante 11 anos as faxinas tornaram as idas ao mangue menos frequentes. Mas a sensação é de que apesar de toda a dificuldade, o mangue sempre entregou o sustento de sua família e a relação aparente é de gratidão. Agora o ‘pão de cada dia’ é retirado “só do mangue”. Todos os dia da semana a caminhada extensa e trabalho pesado fazem parte da vida de Djane. Quando não vende o produto é consumido: “passa fome quem quer”, diz enaltecendo o mangue.

São horas com lama até os joelhos, retirando baldes e baldes com mariscos. O marido Roberto, não tão íntimo do mangue, fica de fora separando o material que precisa ser retirado um a um, do meio dos dejetos e da lama que vem do mangue.

“O que eu ganho é para botar alimento dentro de casa”. Agora sem as faxinas, Djane passa seus dias com água do mangue até os joelhos. “Se eu chegar aqui 9 ou 10 horas da manhã quando eu saio daqui são duas, três horas da tarde. O tempo passa, a gente até esquece, né? me sinto outra pessoa”, revela.

Roberto separa tudo que foi pescado pela esposa Djane.

No decorrer do dia, chegaram o cunhado, irmãos e a mãe de Djane. Todos parecem se sentir em casa no ambiente. Cada um com sua pesca. O filho de Djane fica observando a procura pelos caranguejos. Os cachorros aproveitam enquanto a maré alta não torna tudo em um grande pântano e Djane seguia enchendo seus baldes para poder ter o que comer quando o sol fosse embora.

Fonte: LeiaJá