A falta de centros que internem menores dependentes químicos na RMR empurra os usuários para a delinquência

Dos 293 adolescentes que estão na unidade de Abreu e Lima hoje, 78 deles usavam crack, ou seja 26% deles.
Dos 293 adolescentes que estão na unidade de Abreu e Lima hoje, 78 deles usavam crack, ou seja 26% deles.

O pedido de socorro de Luzia (nome fictício), 33 anos, percorreu todas as instâncias possíveis. Andou quilômetros em busca de algo que não existe. Pequena comerciante, Luzia está sem dinheiro suficiente para custear um tratamento particular para a filha de 15 anos, usuária de drogas desde os 12. Ao mesmo tempo, não encontra saídas na rede pública. Agora ela teme o pior: o envolvimento da garota com criminosos. Assim começa a história de 80% dos adolescentes que praticaram infrações e terminaram recolhidos às unidades da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase). Sem tratamento para a dependência, aumentam as chances de crianças e adolescentes se envolverem com furtos e tráfico para sustentar o próprio vício. Terminam condenados a ficar atrás das grades ainda muito jovens. Nenhum município da Região Metropolitana do Recife dispõe de um serviço que acolha e interne esses dependentes químicos.

Luzia mora em Olinda que, assim como outros municípios da Região Metropolitana do Recife, não oferece internação para adolescentes dependentes de drogas. Quando existe, o serviço de tratamento é direcionado apenas ao público adulto. O caso da comerciante foi parar na mesa da promotora do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) Henriqueta de Beli que atua em Olinda. “A mãe da adolescente já não tinha mais a quem recorrer. Dei à prefeitura um prazo até o final do mês para encaminhar a jovem para tratamento. Se nada for feito, vamos entrar com uma ação contra a gestão municipal”, avisa a promotora.

Os municípios, diz a promotora, podem apresentar projetos nesse sentido aos governos do estado e federal para serem financiados e apoiados tecnicamente. “Em Olinda, nem sequer são feitos convênios com casas de recuperação para encaminhar esses jovens”, completa Henriqueta de Beli. O secretário de Desenvolvimento Social, Articulação e Políticas Sociais de Olinda, André Cândido de Souza reconhece a falta do serviço no município. “Estamos fazendo com a Fiocruz um levantamento de usuários de crack na população de rua. Os dados vão nos ajudar a preparar projetos”, disse o secretário.

Lacuna
Em meio à epidemia do crack que se alastra no estado, o Recife vive situação semelhante a de outros municípios da RMR. “Existe uma lacuna na capital. Precisamos ter um local para o jovem em estado crítico de dependência ficar albergado. A implantação de uma estrutura de atendimento completa seria uma forma de prevenção da prática de infrações. Se existissem albergues, eu teria mais tranquilidade de liberar adolescentes que não praticam infrações de forma contumaz para esses espaços de tratamento”, diz a promotora Heloísa Pollyanna Brito de Freitas.

Em Paulista, a solução está no Agreste, em Caruaru, onde é oferecida internação para tratamento de dependência química de adolescentes. A iniciativa é a única de âmbito municipal em Pernambuco. “Muitos jovens estão ameaçados de morte por conta de dívidas de drogas e não podem ficar nos municípios onde vivem”, explica a promotora de Paulista, Daniela Ferreira.

Fonte: Diario de Pernambuco